Uma Mulher Vestida de Sol - Ariano Suassuna

Ariano Vilar Suassuna nasceu na Paraíba. O nome Suassuna tem origem indígena. Alguns membros da família Cavalcanti adotaram este sobrenome1. Quando Ariano tinha apenas nove anos, seu pai, que era político, foi assassinado. Com medo de represálias, sua mãe se mudou com diversos filhos para Pernambuco. Lá Ariano viveu e amou, amou e viveu.

A artista plástica Zélia Suassuna2, esposa de Ariano com quem viveu por mais de 50 anos, se apaixonou por ele aos 13 anos. E ele, por ela, aos 16. Quase um conto de fadas em tempos modernos. Tiveram quatro filhas. Ela é a autora das ilustrações dos livros de Ariano, entre eles, a peça teatral Uma Mulher Vestida de Sol.


Entre os fatos mais relevantes da carreira de Ariano Suassuna está ser fundador, junto a um grupo de amigos, do TEP, Teatro do Estudante de Pernambuco3. Esse grupo visava a promover a dramaturgia no Estado de Pernambuco, eles promoveram um concurso literário de peças teatrais. Ariano Suassuna escreveu sua primeira peça Uma Mulher Vestida de Sol e ganhou o concurso em 1950. O título é uma alusão ao livro bíblico de Apocalipse. Segundo prefácio dos amigos de Ariano, José Laurênio de Melo4 e Hermilo Borba Filho5, ele era evangélico na época, depois retornou ao catolicismo. Talvez por isso, ele reescreveu Uma Mulher Vestida de Sol cerca de 10 anos depois, acrescentando temas mais polêmicos e menos puritanos, como incesto.

Os amigos de Ariano Suassuna comparam seu teatro ao de Shakespeare. Eles são moderados nessa comparação, talvez por medo de seu sentimento de amizade afetar o julgamento real de talento.  Acredito que a comparação é válida. Suassuna realmente lembra Shakespeare. Parece que o autor compilou estórias tradicionais nordestinas na forma de teatro. Essas histórias são medievais transmitidas oralmente. Provavelmente são as mesmas que Shakespeare ouviu e se inspirou para escrever suas peças também. Ou seja, a fonte de inspiração é idêntica.

Mas Suassuna manteve seu estilo de escrita próprio, que se consolidou na sua peça mais conhecida, O Auto da Compadecida, escrita em 1955. Suassuna explora e religiosidade popular e o humor, apesar de Uma Mulher Vestida de Sol ser uma história dramática. O personagem Cícero é marcante, já é quase uma antecipação do mentiroso Chicó d’O Auto da Compadecida.

Uma fala de Cícero:

“Não se pode estar seguro nem da vida nem da morte. Às vezes, vive-se muito tempo, outras morre-se moço, sem que ninguém saiba por quê.”

Um exemplo do humor sutil de Suassuna:

“Gavião: - Pronto, aí está a nossa prima. Manuel é quem tem razão. Que coisa! Parece uma garrota! Eu só queria ser o pote que ela carrega!
Martim: - Cuidado, ela pode ouvir!
Gavião: - Melhor ainda seria entrar no pote que ela tem, mas isso seria bom demais para mim! Fico em tempo de morrer, só em pensar! Como é grande e forte!
Martim: - Ela?
Gavião: - O pote. (...)”

Se você tiver oportunidade de ver uma peça de Suassuna, não perca essa chance. Vale a pena!

Por favor, fique à vontade para deixar seu comentário.

Boas leituras e um ótimo dia dos pais.

Para saber mais...


2Zélia também era o primeiro nome da escritora Zélia Gattai, companheira do escritor Jorge Amado e imortal da Academia Brasileira de Letras. Confira mais no link: http://500livros.blogspot.com/2016/03/anarquistas-gracas-deus-zelia-gattai.html

3Existem sete mulheres citadas como fundadoras do TEP: Maria Teresa Leal, Ana Canen, Rachel Canen, Dulce de Holanda, Filadelfa Loureiro, Elaine Soares e Galba Marinho Pragana. Não foi possível saber mais sobre a vida dessas pioneiras. Apenas Ana Canen parece ter feito doutorado na Irlanda e se tornado professora de multiculturalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

4José Laurênio de Melo foi um intelectual pernambucano. Saiba mais em : http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/pernambuco/jose_laurenio_de_melo.html

5Hermilo Borba Filho foi um importante político e intelectual pernambucano. Saiba mais em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hermilo_Borba_Filho


Comentários

  1. Galba Marinho Pragana era homem. Foi Tabelião, titular do Cartório Pragana, situado na rua do Imperador. Falaceu em 1998 aos 72 anos.

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