Éramos Seis, Irene Ravache, Moçambique e Angola

Acabo de ler o romance Éramos Seis da escritora paulista Maria José Dupré (1905-1984). Essa é a obra mais famosa da autora. É um romance, em primeira pessoa, percorrendo cerca de 40 anos do começo de 1900 até 1940. A narradora protagonista, D. Lola, é uma mulher casada com Júlio, mãe de quatro filhos, Carlos, Alfredo, Julinho e Isabel, lutando para pagar as prestações de uma casa na Avenida Angélica. A família vive dramas humanos e também históricos. Eles enfrentam a Revolução Paulista de 1924 na cidade de São Paulo, seguida pela Revolução Constitucionalista de 1932 no Estado homônimo e, até mesmo, a Segunda Guerra Mundial afeta as relações da família de D. Lola.



Éramos Seis foi publicado, pela primeira vez, em 1943, alcançando grande sucesso desde início. Ele teve diversas edições no Brasil (eu li a 25ª edição de 1982, a da imagem é a mais recente de 2011). Foi traduzido para o inglês, o francês, o espanhol e o sueco. Foi transformado em filme pelo cinema argentino (1958) e quatro versões de novela (1958, 1967, 1977, 1994). A mais lembrada pelo público é de 1994, com os atores Othon Bastos e Irene Ravache (que interpretou D. Lola).

A escritor Maria José Durpré, que já foi comparada à autora norte-americana de O Vento Levou, pode ser subestimada no Brasil. Além de atingir o grande público, a escritora também é uma grande mestra na descrição da alma humana. Apenas para dar um exemplo, as recordações de D. Lola ao notar a indisciplina de seu filho Alfredo:

À noite, enquanto o sono não chegava, comecei a recordar os conselhos que papai me dera quando me casei:

-Eduque os filhos com critério, Lola. Quando você disser a uma criança: tem que ficar hoje meia hora de castigo; não se esqueça disso que é importantíssimo. Assim, quando você prometer um passeio ou um doce, precisa cumprir, senão se desmoraliza diante do filho, ele não obedece mais porque não crê em você e lá se vai por água abaixo a força moral que é a maior força que temos. E nunca prometa demais; nem castigos muito fortes de que possa se arrepender depois, nem passeios ou promessas que não pode cumprir. Não se esqueça disso, são fatores principais na educação de um filho.

Meditando nessas palavras da experiência ouvida há tantos anos atrás, pensei com certa tristeza que Alfredo com onze anos apenas não me obedecia, fugia aos castigos e não dava atenção às minhas palavras. Eu sabia que papai tinha razão, ...

Essa é uma verdade vivida por muitos pais até hoje. O livro é permeado de reflexões muito atuais. Vale a pena lê-lo.

Por onde anda a atriz Irene Ravache?

Irene Ravache foi a atriz mais conhecida por interpretar D. Lola. Ela, além de atriz, se tornou diretora de cinema e faz muitos trabalhos em Portugal e no Brasil. É uma atriz que conseguiu seguir uma carreira dupla e bem sucedida nos dois continentes.

O mais recente filme de Irene Ravache em Portugal (2014) é Yvone Kane. O filme conta a história de uma idealista moçambicana, Yvone Kane, assassinada em condições suspeitas durante a Guerra de Independência de Moçambique. Irene interpreta a protagonista, uma jornalista amiga de Yvone, que retorna ao país em tempos modernos para investigar o que realmente aconteceu durante a guerra. Fica a recomendação de um ótimo filme.


Pra quem gostou do filme Yvone Kane...

Para quem gostou do filme Yvone Kane, e quer entender mais sobre os processos de independência e a vida na África portuguesa, vale a pena assistir o documentário É proibido falar em Angola da diretora Eliza Capai. Ela foi investigar as relações da empreiteira Odebrecht com o governo de Angola. O presidente eleito de Angola, José Eduardo dos Santos, está no poder desde 1979, o que, no mínimo, estranho para um processo democrático. Além disso, sua filha, Isabel dos Santos, é considerada a mulher mais rica de todo continente africano.


O documentário de Capai está disponível no site da Agência Pública, uma agência brasileira de jornalismo investigativo independente. O documentário se divide em quatro blocos: É Proibido Falar em Angola Intro (duração: 2’:56’’); É Proibido Falar em Angola Bloco #1(duração: 12’:21’’); É Proibido Falar em Angola Bloco #2 (duração: 15’:42’’) e É Proibido Falar em Angola Bloco #3 (duração: 8’:29’’).

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