NOTAS SOBRE A LITERATURA GREGA...

A Grécia (em grego, chamada de Elláda) é um país de 11 milhões de habitantes, cuja capital é Atenas, com 4 milhões de moradores. A Grécia da Antiguidade é conhecida por ter inventado o que chamamos de democracia, a ideia de que os cidadãos (no caso, homens ricos) pudessem votar e decidir coisas pertinentes à vida urbana. A Grécia também inventou o teatro na cultura ocidental. Além disso, os filósofos Aristóteles, Platão e Sócrates são base do estudo da Filosofia. Na literatura, as sagas clássicas Odisseia e Ilíada, atribuídos ao poeta cego Homero, influenciaram outros poetas por séculos (possivelmente, ainda influenciam até hoje).

Vista de Atenas a partir do centro.


MAS E A LITERATURA GREGA DO SÉCULO XX?

A Grécia passou por muitas transformações dos tempos de Homero aos atuais. Todos os eventos políticos e econômicos se refletiram em seu povo e sua literatura. Entre eles...

REGIME DE 4 DE AGOSTO

A Grécia enfrentou a sua primeira ditadura do século XX, a partir do dia 4 de agosto de 1936 até 1941, que também é conhecido como Regime Metaxás (esse também é o nome de uma das mais importantes estações de metrô de Atenas). Esse regime não disfarçava sua admiração pelo nazismo.

GUERRA CIVIL GREGA

A Grécia enfrentou uma guerra civil de 1946 a 1949, envolvendo as forças monárquicas do governo grego (sim, a Grécia era uma monarquia naquela época! Saiba mais clicando aqui), apoiadas pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, contra o KKE (Partido Comunista da Grécia).

DITADURA MILITAR

A Grécia enfrentou um processo ditatorial militar, de extrema direita, de 1967 até 1974, que ficou conhecido como Ditadura dos Coronéis e cujo principal líder foi o coronel Georgios Papadopoulos.

A IGREJA ORTODOXA

A religião oficial da Grécia é a Igreja Ortodoxa Grega. O que chama a atenção é que, na Grécia, ela é fundida ao Estado. Não existe, por exemplo, certidão de nascimento na Grécia. Só existe certidão de batismo na Igreja Ortodoxa. Se um grego tiver um bebê, o único modo que essa criança tenha um nome e documentos é batizando-a na Igreja Ortodoxa. No paid , até hoje, o ensino religioso é obrigatório em todas as escolas públicas (não existem escolas particulares) e ele só ensina os preceitos da Igreja Ortodoxa, eles não ensinam nada sobre nenhuma outra religião. Isso dá um poder enorme à igreja sobre a população e o governo.

A DIÁSPORA GREGA

Devido a essas e outras questões, os gregos se espalharam por todo o mundo. E havia colônias de gregos em vários lugares.

Biblioteca Nacional da Grécia.

A MALDIÇÃO DE SER UM ESCRITOR GREGO

Entre os maiores poetas gregos estão Cavafy, Ritsos, Seferis e Elytis (os dois últimos laureados com o Nobel respectivamente em 1963 e 1979). E o maior representante da prosa foi Nikos Kazantizakis, autor do livro Zorba, o Grego.  Dos cinco autores, dois não nasceram na Grécia: Cavafy, no Egito, e Seferis, na Turquia.

Vista de Atenas a partir do Partenon.

E dois não ganharam o Nobel por suas posições políticas e problemas com a sociedade grega. Kazantizakis foi indicado nove vezes ao prêmio, mas a sua obra foi muito influenciado por Nietzche, ele era um autor considerado muito “ateísta” para a Igreja Ortodoxa do país e os próprios gregos fizeram pressão e influenciaram para que o escritor não fosse laureado com o Nobel. Já Ritsos era um comunista convicto e a fundação Nobel não dava prêmios a comunistas nos tempos de Guerra Fria. A União Soviética oferecia o Prêmio Lênin (para competir com o Nobel) a autores comunistas, com o qual Ritsos foi laureado. O único autor a receber os dois prêmios (Lênin e Nobel) foi Jean Paul Sartre, e ele recusou o segundo.


Vista noturna da Acrópolis a partir do Museu Acrópolis.

Constantine Peter Cavafy (1863-1933) foi um escritor, jornalista e funcionário público. Ele nasceu e viveu quase toda sua vida no Egito (com exceção de alguns poucos anos que viveu no Reino Unido). Naquela época, o Egito era uma sociedade mais aberta e cosmopolita que a Grécia, pois Cavafy sempre foi um homossexual assumido. Ele escreveu ao todo 154 poemas, que ele fazia circular manuscritos entre amigos. Ele jamais publicou algo em vida.  Sua temática é classificada geralmente em três categorias: sexual, metafísica e clássica. Após sua morte, seus poemas foram recolhidos e publicados, alcançando grande sucesso.

Um dos seus mais belos poemas é Ítaca. Lembrando que Ítaca é a cidade que o herói Ulisses da saga Odisseia sonha em retornar. Ele dedica a sua vida a esse propósito. Todos temos nossas Ítacas...

ÍTACA
Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quando houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.



Museu Acrópolis.
Outro poema famoso de Cavafy...

As Velas
Temos à frente os dias do futuro
como uma fila de velas acesas
– quentes e vivas e douradas velas.
Ficam atrás os dias passados,
fileira triste de velas sem chama:
ainda sobe fumo das que estão mais perto,
vergadas pelas frias que já se apagaram.
Eu não quero vê-las: tanto me entristece o seu ar de agora
como relembrar o fulgor antigo.
Olho à minha frente as velas acesas.
Não vou voltar-me nem vou ver num arrepio
como cresce tanto a fileira escura,
como é tão veloz o apagar das velas.



Peças do Museu Acrópolis.

Muito obrigada a todos que nos seguem. Por favor, fiquem à vontade para deixar sua crítica, sugestão ou comentário. Estamos doando uma edição bilíngue (grego e inglês) de poemas de Cavafy, traduzidos por David Connolly da editora Aiora, publicada em 2015. Se você tiver interesse em receber este livro na sua casa, por favor, compartilhe o nosso link e deixe um recado aqui ou na nossa página no Facebook.





Boa semana! Boas Leituras!


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