Porque nenhuma escola nunca me tornou de esquerda!

O Senado brasileiro abriu ontem consulta pública sobre o projeto de lei Escola sem Partido [1]. Esse projeto prevê a ‘neutralidade’ dos docentes (de ensino fundamental e médio) diante de questões políticas em sala de aula. Vão ter que me provar, primeiramente, que isso existe e é possível. Segundo a internet [2], o projeto prevê a fixação, em sala de aula, dos seis deveres do professor.



Eu acredito que a economia (neo)liberal é a única solução econômica viável. Sou convicta disso já há alguns anos. Portanto, essa crença me faz ser de direita. Estudei em escolas públicas e particulares. Todos os meus professores (e os meus pais) tinham opiniões políticas de esquerda e as expressavam livremente. Mas eles também incentivavam o pensamento independente e a busca pelo conhecimento.

Nenhum professor nunca me convenceu a ser de esquerda. Por quê? Porque convencer alguém a ser algo que ele/ela não é (ou não quer ser) não é fisicamente possível. Leandro Karnal, filósofo e professor universitário, comentou, no programa Roda Viva da TV Cultura, que esse projeto deve ser de uma “direita delirante”. Concordo com o adjetivo DELIRANTE. Ninguém nos convence ninguém a ser nada. Nós somos o que desejamos ser e a escola deve, sim, ser um lugar de exposição de ideias. O(A) professor(a), como todo ser humano, deve ter direito de expor suas convicções pessoais em sala de aula. Assim ele/ela ensina, pelo exemplo, o que é respeito à divergência de opiniões.

Perdoe-me, caro leitor, mas vou fazer uma retrospectiva nostálgica da minha vida escolar.

Nasci em 1986, em Ituiutaba, interior de Minas Gerais. Aprendi a ler e escrever sozinha, porque meus pais, como eram de esquerda, acreditavam num modelo sueco de educação, que prega a alfabetização tardia das crianças. Pouca gente conhece isso hoje em dia. Mas estava na moda na época.

A ideia da escolarização tardia é uma defendida até hoje, inclusive pela University of Cambridge na Inglaterra [3]. Eu, obviamente, sou contra. No Brasil de hoje, o que meus pais fizeram comigo (proibindo de ir à escola) seria ilegal. Do contra desde pequena, aprendi a ler sozinha aos 5 anos com embalagens de produtos.

Aos 7, em 1994, fui matriculada num colégio particular evangélico. Aos 8, minha escola fechou no meio do ano.  Passei os últimos 3 meses num colégio estadual e, o último mês, num particular laico. Durante os 9 e 10 anos, fiquei no mesmo colégio particular com a mesma professora (que aliás, não gostava nem um pouco de mim). Até aqui, as únicas ideologias pregadas foram a cristã, do primeiro colégio, e a de esquerda, dos meus pais. Não serviu pra nada. Porque eu não sou cristã e nem de esquerda.

 Aos 11, fui para um colégio estadual. Fiquei lá por um ano e meio. Tive minhas primeiras aulas de História, com uma professora que, óbvio, era de esquerda. Ela também era espírita e acreditava que Sai Baba era um grande santo hindu [4]. Ela falava sobre as crenças pessoais dela em todas as aulas. Apesar de amá-la como professora, até hoje, não tive a menor vontade de conhecer o espiritismo. E eu desconheço que algum dos meus ex-colegas se tornou um seguidor de Sai Baba. E, é claro, eu nunca li um livro dele e nem pretendo.

Um fato muito marcante é que este colégio, mesmo sendo estadual, tinha aulas de religião e exclusivamente de religião católica. Eu tinha notas muito baixas nessa disciplina. Eu me recusava a escrever que Jesus estava na hóstia. O ápice foi um dia em que houve uma missa (isso mesmo, uma missa!) na escola e nós fomos obrigados a participar. Hoje, se fizessem isso com um filho meu, dentro de uma escola pública, eu processaria o colégio. O Estado precisa aprender a ser laico.

Continuando, passei mais 2,5 anos num colégio municipal perto de casa. Lá também tive aulas de História com uma professora que também era de esquerda. Ela estimulava muito o debate e me ensinou a checar as informações. Além de mostrar que quem conta uma versão da História, tem sempre um interesse por trás. Ela recomendava, com paixão, a leitura do livro As Veias Abertas da América Latina do uruguaio Eduardo Galeano. Uma Bíblia da esquerda brasileira. Eu li-o, vários anos depois, e ri até as lágrimas das incoerências históricas do livro. Lembrei com saudade da escola, e pensei “Coitada da minha professora! Ela não sabia de nada”.

No ensino médio, fui para um colégio particular católico, que já foi considerado, pelo MEC, o melhor do Brasil. A madre superiora estava muito a frente da época e da sociedade. Na minha sala, tinham gays, lésbicas, negros, negras, deficientes físicos e pessoas vindas de várias classes sociais. Tínhamos aula de Geografia, História, Religião, Sociologia e Filosofia. A minha professora de Geografia era de esquerda. Ela era enfática nas suas opiniões. Não serviu pra nada, não me converteu. A de História era um pouco apagada politicamente. Não me lembro de suas opiniões. A de Religião era de direita e católica, mas tínhamos mais diálogo inter-religioso lá do que no colégio estadual. O de Sociologia era tudo que alguém não pode ser no Brasil: negro, gay, pobre e de esquerda. Ele me ensinou a pensar e ver muitas coisas com olhos diferentes. O de filosofia era um padre. Acredito que ele não votasse. Quando lhe perguntavam, ele respondia “Vote no Sócrates, meu cachorro”.

Como eu me tornei de direita, então?

Fui da UNE (União Nacional dos Estudantes) e do PMDB (mas, por favor, não espalha!) e fiquei decepcionada com a postura de alguns colegas. Na faculdade, fiquei distante de movimentos políticos. Mas o discurso de tantos grupos de esquerda me cansava. Eu achava aquelas ideias, pouco aplicáveis. Belos discursos, lindas ideias, mas nada muito prático. Eu me considero uma pessoa pragmática.

Depois de formada, fiquei um tempo procurando emprego. Para preencher as horas livres, fiz vários cursos gratuitos do Senado [5]. Se você não conhece, recomendo todos. Entre eles, fiz um curso de Doutrina Política: Liberalismo. Detalhe, eu fui reprovada no curso. Mas gostei muito e acabei me aprofundando no tema, lendo a bibliografia recomendada. Vi que era aquilo que eu acreditava como solução econômica para um país, como o Brasil.

Leitura recomendada.
O livro liberal que eu mais gostei de ler foi OCaminho da Servidão de F. A. Hayek.  E o que eu mais odiei foi A Revolta do Atlas. Eu nem dei conta de terminar de lê-lo. Antes de tentar lê-lo, já ouvira de um conhecido de esquerda: “Eu respeito o liberalismo. Mas nunca consegui terminar de ler A Revolta do Atlas”. Hoje eu responderia: “Nem eu.”. Sempre brinco que se algum professor, querendo me doutrinar para direita, me obrigasse a ler A Revolta do Atlas. Hoje eu estaria no PSTU ou no PCdoB.


O ser humano nasce livre e é livre para construir seu pensamento independente. Um(a) professor(a) é um (a) direcionador(a) desse processo de construção. Todo(a) professor(a), como ser humano livre, deve ter o direito de manifestar sua opinião em sala de aula. A construção ideológica é única, moldada por infinitas experiências de cada indivíduo. Nenhum(a) professor(a) tem superpoderes para moldar alunos.

Muito obrigada por seguir o nosso blog. Por favor, fiquem à vontade para compartilhar sua opinião sobre o projeto de lei ou ser até um pouco mais nostálgico, contando as histórias de escola.

Boas leituras! 




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