Mulheres de generais: belas, recatadas e “do lar”... Só que não!

alegra-te com a mulher de tua mocidade.” (Provérbios 5:18)

Esta semana, fui apresentada à matéria sobre a esposa do Vice-Presidente Michel Temer. Não quero criticar a felicidade alheia, sou plenamente a favor da realização de todos os seres humanos. Todos nós devemos ser livres para nos casarmos com quem quisermos, independentemente de gênero, idade, raça ou crença.

No entanto, lendo a matéria, interpretei como uma apologia a esse tipo de união e a mulheres belas, recatadas e “do lar”. Acredito que propaganda a um estereótipo único de mulher (talvez irreal) pode influenciar negativamente as mais jovens e inseguras.

Por isso, fiz uma pesquisa na Wikipédia sobre os cinco generais da Ditadura que exerceram a Presidência e suas mulheres.




Começando por Humberto Alencar Castelo Branco... O General Castelo Branco era cearense (portanto, nordestino!), nascido em 1897  na família do escritor José de Alencar. Ele era parente da escritora Rachel de Queiroz, isso pode ter contribuído para que ela fosse a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Além do mais, é possível que a influência do primo diminuísse a perseguição contra Rachel de Queiroz, politicamente engajada naquela época. Não, Rachel não era recatada, nem do lar.

Quando Castelo Branco assumiu o poder, já era viúvo. Sua esposa, com quem teve 2 filhos,  se chamava Argentina Viana Castelo Branco e era irmã do historiador  Hélio Viana. Ou seja, uma família de intelectuais. Ninguém era recatado nem “do lar” naquela família. Pouco se sabe sobre Argentina, até sua data de nascimento é controversa. Mesmo nas estimativas mais conservadoras, ela era mais velha que o marido.  Argentina acompanhava Castelo Branco de perto em todas as suas campanhas militares. Tudo indica que Castelo Branco era um marido apaixonado e feliz.

Em seguida, o general Artur da Costa e Silva, nascido em 1899, era gaúcho e casado com Iolanda Gibson Barbosa da Costa e Silva. Iolanda casou-se na adolescência e teve apenas 1 filho. Ela era inicialmente católica, mas no final da vida converteu-se ao espiritismo. Ela gostava de moda e de promover festas em sua casa, acredita-se que Iolanda tenha influenciado na carreira de Paulo Maluf e Fernando Collor de Mello. Ela escreveu um livro após a queda do regime, chamado A Verdade, Nada Mais que a Verdade. Se alguém conseguir encontrar esse livro, por favor, gostaria muito de lê-lo.




Nosso terceiro general é Emílio Garrastazu Médici, gaúcho e nascido em 1905. Médici era casado com Scila Gaffrée Nogueira.  Aparentemente Scila era, sim, recatada e “do lar”. Tiveram 2 filhos. Mas, ao contrário de algumas esposas de político, o recato de dona Scila traduzia-se numa vida simples, sem móveis ou roupas luxuosas. Ela se recusou a comprar móveis para mobiliar o Palácio de Governo.

Ernesto Geisel, nosso quarto general, também era gaúcho. Nascido em 1907, ao contrário dos demais, era protestante. Geisel casou-se com sua prima de primeiro grau, Lucy Markus. Lucy era professora primária e teve 2 filhos. Também muito discreta, não aparecia em eventos públicos. Pouco se sabe ao seu respeito.

Nosso último general, João Baptista de Oliveira Figueiredo era carioca, nascido em 1918. Sua esposa era Dulce Maria de Guimarães Castro e teve 2 filhos. Pouco se sabe sobre Dulce, exceto que, ao final de sua vida, enfrentou dificuldades financeiras graves. Ser “do lar” de um político honesto parece ser uma coisa bem complicada no Brasil...

Aqueles que acreditam em valores tradicionais de família e posição feminina podem (ignorando as esposas dos generais Castelo Branco e da Costa e Silva) se inspirar na Ditadura. Todos os generais tiveram uma única esposa e, no máximo, dois filhos. Como escrito em Provérbios 5:18, “alegra-te com a mulher de tua mocidade.”. Os generais cumpriram o que prescreve a Bíblia. Mas o Temer, apesar de nascido em 1940 (portanto, 22 anos mais jovem que o general Figueiredo), teve cinco filhos com três mulheres. Diga-se passagem,das quais, ele só se casou com duas. A mais recente, dona Marcela, é elogiada pela matéria por ser "bela, recatada e do lar", além de 43 anos mais jovem que Temer.


Simplesmente não entendo como alguém que prega valores tradicionais (que eu não prego e não concordo!), pode eleger Michel Temer como um exemplo! 

Boas leituras! Bom feriado a todos!

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