Lendo a Bíblia com ateus – Parte III



Os livros históricos, como o próprio nome sugere, relatam fatos da História de Israel. Porém, os livros não estão dispostos em ordem cronológica e, às vezes, vários deles relatam um mesmo fato e silenciam outro.

Eles são: Josué, Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias e Esther. Rute e Esther são as únicas mulheres que têm um livro dedicado a elas na Bíblia (protestante, a Católica também tem Judite).

Rute e sua longa jornada

Rute era uma mulher estrangeira casada com uma família israelita. Todos os homens de sua família morreram, restando apenas Rute e sua sogra israelita. A anciã fala que Rute está desobrigada de cuidar dela e que pode voltar para o seu povo, porque ela também pretende fazer o mesmo e voltar a pé para Israel. Rute diz que jamais vai abandoná-la e as duas voltam juntas para Israel.
Duas mulheres sozinhas, a pé, percorrendo uma distância equivalente à distância entre Curitiba e o Rio de Janeiro, numa época em que a violência era muito mais comum do que hoje em dia. É impossível não se comover imaginando a longa caminhada das duas num deserto. Milagrosamente elas chegam e aí acontecem fatos ainda mais milagrosos

Esther e o Holocausto

Esther é a esposa judia de um rei persa. Um funcionário do alto escalão odeia o povo judeu e quer exterminá-lo. E ele quase consegue, mas Esther intervém ousadamente e salva seu povo.
Em tempos modernos, ninguém levava esse livro a sério. Ele era interpretado como mitologia para justificar a festa judaica do Purim. Pois os judeus já tinham sofrido várias perseguições em vários reinos, mas todas por motivos políticos e financeiros.
Ninguém acreditava que, em alguma época da Antiguidade, os judeus pudessem ter sido perseguidos e exterminados simplesmente por sua etnia, o conceito de genocídio não existia. Depois da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, o livro de Esther passou a ser levado a sério. Ele deixou de ser mitológico para se tornar um livro histórico.
 


Josué e Juízes

Voltando ao povo de Deus, à fuga do Egito e à travessia do deserto. Moisés morre no fim do Pentateuco (Isso não é spoiler, é de conhecimento geral!). O jovem Josué lidera a entrada do povo israelita na Terra Prometida (Livro de Josué), depois disso, o povo é governado por vários juízes (Livro de Juízes).
Há inclusive uma juíza mulher, Débora. Junto com o general Barack (não é o Obama!), ela lidera uma guerra e salva o povo judeu (descrito no capítulo 5 e 6 de Juízes). É impressionante quando lembramos que era uma mulher governando Israel 1.200 anos antes de Cristo!

Ascensão e Queda dos Reis de Israel

O último juiz foi Samuel. Depois disso, o povo passa para o governo monárquico. E eles têm reis célebres como Saul, Davi e Salomão. Salomão constrói o Templo (pela primeira vez). Isso é narrado nos livros 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis e 1 e 2 Crônicas.
Quando um rei chegava ao poder, era comum ele queimar os documentos do reinado anterior. Eu custei a perceber que a versão que eu estava lendo da História era, principalmente, a versão do profeta Samuel e, um pouco, do rei Davi. Como os outros livros foram queimados fica bem difícil saber a veracidade histórica da versão bíblica.

Livro básico. Fácil leitura e entendimento. Esclarece a psicologia por trás do relacionamento profeta Samuel, rei Saul e rei Davi.
  
Um livro que me despertou para outras interpretações (recomendo!) é Os Segredosda Bíblia – A Mensagem Psicológica do Velho Testamento do psicanalista Roberto Lima Netto. O autor entra nas razões psicológicas de cada personagem e explica porque cada um fez o que fez, quais eram os reais motivos. Além de interpretar sobre uma ótica jungiana quais arquétipos essas histórias representam.

No final da dinastia de Davi, Israel declara guerra à Babilônia (o reino mais poderoso da época, isso é um verdadeiro ato de insanidade). E os babilônios tomam Jerusalém, destroem o Templo e levam a elite judaica para Babilônia. Essa é considerada a primeira Diáspora judaica.

“À sua sombra viveremos entre as nações.” (Lamentações de Jeremias 4:19d)

É inusitado que o fato mais dramático e mais impactante da História de Israel seja descrito em apenas um capítulo de um único livro (2Reis 25). A Bíblia é extremamente sucinta sobre esse ponto. Só conseguimos saber mais detalhes históricos porque o mesmo fato é referenciado nas Crônicas da Babilônia e nos Anais Assírios. Também é possível saber alguma coisa mencionada nos livros proféticos.
Por exemplo, o cerco durou vários meses. E, em desespero, as famílias passaram fome e chegaram a matar seus filhos para comê-los. Mas o leitor só percebe isso, ao ler  os livros proféticos de Jeremias (32:24) e Lamentações de Jeremias (2:20).


A reconstrução do Templo e a volta para Israel

Os livros de Esdras e Neemias contam a história dos sacerdotes que lideraram a volta de seu povo para Israel (várias décadas depois) e a reconstrução do Templo de Jerusalém. Assim como o Pentateuco, essa é uma história de liderança, organização e persistência. É interessante pensar que o Velho Testamento começa e termina com uma saga heroica. 

Livro avançado. Esclarece o contexto histórico e cultural do nascimento de Jesus.

Nossa História acaba cerca de 500 anos antes do nascimento de Jesus. Na Bíblia protestante, esse é um período de completo silêncio.  A Bíblia Católica menciona um fato histórico relevante, a guerra de Macabeus (Livros 1 e 2 Macabeus). Ele ajuda a compreender qual foi o contexto cultural e histórico em que Jesus nasceu. Mas o livro que mais elucida o contexto desse período é A História dos Hebreus de Flávio Josefo.

Até nosso próximo encontro!



 

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