Simone de Beauvoir era feminista?


 Acabo de terminar a leitura de A Convidada de Simone de Beauvoir. Eu escuto referências positivas à esta autora desde de criança. Então minhas expectativas eram muito elevadas.

  Já li dois livros dela (A Mulher Interrompida A Convidada) e os dois são péssimos. Está muito difícil escrever esse post, pois será a minha primeira crítica negativa de um livro.


Para começar de modo positivo, quero enfatizar como eu consegui este livro. Foi através de um projeto de Biblioteca de Rua na cidade de Ituiutaba. São "cabines" espalhadas pela cidade, com vários livros dentro. Qualquer pessoa pode abrir a cabine e pegar quantos livros quiser. Na primeira página, o leitor encontrará esse aviso divertido pedindo que o livro continue circulando, que após lê-lo a pessoa devolva-o, mesmo que seja numa cabine diferente. Acho esse programa muito bom e falarei dele nos próximos posts.

 A Convidada gira em torno de triângulos amorosos. O casal de intelectuais Françoise e Pierre Labrousse moram em quartos separados num hotel, mas tem um relacionamento semelhante ao conjugal. Eles dizem se amar. Françoise permanece fiel sexualmente a Pierre. E ele tem relacionamentos sexuais com diversas parceiras. Considerando que a autora é fortemente autobiográfica em seus livros, eu assumo que Françoise seja Simone de Beauvoir e Pierre seja Jean-Paul Sartre, uma vez que eles realmente tiveram um relacionamento conjugal, mas nunca moraram juntos.

 Françoise conhece uma jovem rica e mimada do interior da França, chamada Xavière. Ela simpatiza com a moça, convida-a para vir morar em Paris e a aloja no mesmo hotel que o casal. Xavière não se dedica a nada, passa a maior parte do tempo em seu quarto e sai com o casal nos eventos sociais deles. No começo parece haver um interesse homossexual entre Françoise e Xavière. Mas Pierre se apaixona fortemente por Xavière e isso abala Françoise. Mesmo assim, ela aceita a situação de triângulo amoroso (ou seria poli-amor?) com resignação.

 No livro Pierre diz que não é um sexual, portanto, que sua paixão por Xavière não é do plano físico. Eles conversam, trocam beijos e carícias, mas eu fiquei na dúvida se eles tiveram relações sexuais ou não. O que, diga-se de passagem, é muito estranho para o relacionamento de um homem com sua amante.

 Em um dado momento, Xavière tem relações sexuais com um homem mais jovem, Gerbert. Pierre vira um macho enfurecido. Ele chega a espiar os dois pelo buraco da fechadura e fica louco de raiva porque Xavière, a sua fêmea, não é totalmente submissa a ele. A postura de Françoise é de um sofrimento passivo. Deste ponto em diante, a estória ganha mais ação e velocidade até o desenlace final.

 Assumindo que Françoise é Simone de Beauvoir, foi frustrante descobrir que um ícone do feminismo levou sua vida na sombra de "um grande homem", que foi submissa a ele (até sexualmente) e que se deixou até ser humilhada. Eu entendo o fim da história como um desejo de vingança infantil da autora. Percebe-se claramente que ela está dando o troco e conquistando o seu homem na ficção, de uma forma que ela não conseguiu na vida real.

 Eu não vejo nenhuma diferença entre Françoise e uma dona de casa que apanha do marido, a não ser a condição financeira elevada de Françoise, o que deveria lhe permitir não ser obrigada à sujeição tão humilhante. É difícil julgar uma pessoa de outra época. Eu nasci num momento em que as mulheres conquistaram muito mais direitos. Mas com a mentalidade atual, uma mulher se submete ao que Simone de Beauvoir aceitou seria muito mais coerente sendo a favor do regime patriarcal do que sendo feminista. 

 No meu quarto, eu montei o que eu chamo de Panteão das Divas, um conjunto de quadros emoldurados com fotos das mulheres mais extraordinárias de todos os tempos. Vou ler pelo menos mais um livro de Simone de Beauvoir, mas posso afirmar que, a não ser que a terceira leitura seja surpreendente, Simone não vai pro Panteão. É a minha vingança infantil (risos).

Panteão das Divas, da esquerda para direita, de cima para baixo:
1. Joan Robson, a melhor economista que nunca ganhou um Nobel;
2. Hanna Arendt, filósofa;
3. Marie Curie, cientista, primeira mulher a dar aulas numa universidade e a ganhar um Nobel;
4. Alexandra David-Néel, exploradora, primeira estrangeira e visitar a cidade sagrada de Lhasa, no Tibetete

Panteão das Divas, da esquerda para direita:
5. Margaret Bourke-White, fotógrafa, fez a primeira capa da revista Life;
6.Hanna Reitsch, piloto de testes da Alemanha nazista, um dos pilotos mais habilidosos e extraordinários de todos os tempos.

Panteão das Divas, da esquerda para direita:
7. Louise Sutherland, ciclista, primeira pessoa a cruzar toda Rodovia Transamazônica de bicicleta, sem falar português e sem apoio técnico;
8.  Karen Horney, psicanalista, questionou as ideias de Freud e foi duramente rechaçada por ele.



 Gostou? Por favor, deixe seus comentários. Aceito sugestões para o Panteão.

 Bom fim de semana e até domingo à noite.






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