"QUERO PENSAR QUE O MEU OFÍCIO É A VIDA E QUE A MINHA MISSÃO NÃO É PROLONGAR O ÓDIO" (A CASA DOS ESPÍRITOS - ISABEL ALLENDE)

A Casa dos Espíritos, no original La casa de los espíritus,  é um romance da escritora chilena Isabel Allende, publicado em 1982, que ganhou prestígio internacional. O livro já foi traduzido para diversos idiomas e adaptado para o cinema em 1993, numa produção protagonizada por Antonio Banderas e Meryl Streep.

Capa do filme de 1993, uma coprodução de Alemanha, Dinamarca e Portugal.

O livro é classificado como realismo mágico, uma estória que incorpora coisas inverossímeis e estranhas ao mundo real. Ele trata da estória de uma rica família chilena por quatro gerações. Ele começa com a família del  Valle,  cujo pai é político do Partido Liberal, e suas duas filhas, Rosa e Clara. O jovem Esteban Trueba  gostaria de desposar Rosa, mas ele é muito pobre, então parte para o norte do Chile com o sonho de ficar rico. De fato, ele fica rico, mas as coisas não ocorrem como ele gostaria. A família vai crescendo entre filhos bastardos e legítimos. Ao contrário da versão do filme, no livro, Esteban tem três filhos legítimos, Blanca e os gêmeos Nicolau e Jaime. De Blanca, nasce Alba, a menina dos olhos do velho Esteban Trueba, no fim da vida, solitário e rico senador do Partido Conservador.  Nesse momento, se dá o golpe da Ditadura Chilena.

Capa da 30ª edição do livro em português (de 1994).

Como saga familiar, A Casa dos Espíritos é uma obra literária maravilhosa, comparável a grandes obras literárias de autores laureados com o Prêmio Nobel, como Cem Anos de Solidão (de Gabriel García Marquéz), Buddenbrooks (de Thomas Mann), A Leste do Éden (de John Steinbeck) e A Boa Terra (de Pearl S. Buck). Mas, é, sobretudo, como um testemunho histórico de como se deu a Ditadura na maioria dos países latino-americanos que esse livro se destaca. Se você é brasileiro(a), você tem a obrigação cívica de ler A Casa dos Espíritos pelo menos uma vez na vida! Não espere um livro clichê onde só quem estava de um lado é bom e quem estava do outro é mau. A história transcende essa questão partidária. E não, não adianta ver o filme. A adaptação tirou toda questão política e focou exclusivamente na parte familiar, ao ponto de tirar dois filhos do protagonista  e quatro personagens principais (Jaime, Nicolau, Amanda e Miguel) para não tocar no assunto ditadura. Apenas assistindo o filme, fica difícil até entender porque o título é A Casa dos Espíritos. A tradução brasileira do livro é medíocre, mas faça um esforço, vale a pena até tentar ler no original, já que português e espanhol são duas línguas tão próximas.

Um trecho da fala da prostituta ambiciosa Tránsito Soto:

“Nesse sentido as mulheres são muito brutas. São filhas do rigor. Necessitam de um homem para se sentirem seguras e não se dão conta de que a única coisa que há a temer são os próprios homens. Não sabem administrar, necessitam sacrificar-se por alguém. As putas são as piores, patrão, acredite-me.”

Um trecho da fala de Clara:

“Isto serve para nos tranquilizar a consciência, minha filha – explica a Blanca. – Mas não ajuda os pobres. Eles não necessitam de caridade, mas, sim, de justiça.”

Sobre a situação política no Chile, muito semelhante à brasileira:

“Nem o próprio coronel Hurtado, que via inimigos da pátria por todos os lados, considerava os comunistas como um perigo. Fez-lhe, ver mais uma vez, que o Partido Comunista era composto por quatro pobres diabos que não significavam nada estatisticamente e que se regia m pelas ordens de Moscou numa beatice digna de melhor causa.”

“Para o senador Trueba, todos os partidos políticos, exceto o seu, eram potencialmente marxistas e não podia distinguir claramente a ideologia de uns e de outros.”

“Teve a habilidade de ser o primeiro que chamou à esquerda “inimiga da democracia”, sem suspeitar que anos depois esse seria o lema da ditadura.”

“Na grande casa da esquina, o senador Trueba abriu uma garrafa de champanhe francês para celebrar a queda do regime contra o qual tinha lutado ferozmente [Nota do blog: o governo democraticamente eleito do presidente socialista,  Salvador Allende], sem suspeitar que nesse exato momento estavam a queimar os testículos ao seu filho Jaime com um cigarro importado.”

Imagem real do palácio de governo chileno sendo bombardeado em 1973.

“”Pão, circo e algo que respeitar é tudo o que necessitam”, concluiu o Senador, lamentando no íntimo que faltasse o pão.”

Não compreendeu o estado de guerra interna nem viu que a guerra é a obra de arte dos militares, o culminar dos seus treinos, a joia dourada da profissão. Não são feitos para brilhar na paz. O golpe deu-lhes a oportunidade de pôr em prática o que tinham aprendido nos quartéis, a obediência cega, o manejo das armas e outras artes que os soldados podem dominar quando acalmam os escrúpulos do coração.”

“Uma grande parte da classe média alegrou-se com o golpe militar, porque significava o voltar da ordem, da pureza dos costumes, das saias nas mulheres e do cabelo curto nos homens, mas logo começou a sofrer o tormento dos preços altos e da falta de trabalho. O salário não chegava para comer. Em todas as família havia alguém a lamentar e já não podiam dizer, como no princípio, que se estava preso, morto ou exilado, era porque se o merecia. Também não puderam continuar a negar a tortura.”

“Compreendeu que a única coisa que realmente lhe importava era não perder a neta, porque ela era o único laço que o unia à vida.”

Imagem retirada do PixaBay.

“Nesses meses, o Senador tinha aprendido que nem sequer a sua limpa trajetória de golpista era garantia contra o terror.”

“Nunca imaginou, todavia, que veria entrar na sua casa, ao abrigo do toque de recolher, uma dúzia de homens sem uniforme, armados até os dentes, que o tiraram da cama sem contemplações e o levaram pelo braço até o salão, sem lhe deixar calçar as pantufas ou agasalhar-se com um xale. Viu outros que abriram a porta do quarto de Alba e entravam com as metralhadoras na mão, viu a neta completamente vestida, pálida, mas serena, esperando-os de pé, viu-os dando-lhe empurrões e levando-a com armas apontadas...”

O livro descreve as torturas físicas e psicológicas que a neta do Senador sofreu, supostamente com objetivo de dar uma informação que ela não sabia, mas muito mais pelo sadismo dos torturadores. No Inferno, Alba recebe ajuda de outras mulheres. Assim ela descreve uma das que se solidarizou com ela:

Era uma daquelas mulheres estoicas e práticas do nosso país, que têm um filho de cada homem que passa pelas suas vidas e que, além disso, recolhem no seu lar as crianças que outros abandonaram, os parentes mais pobres e qualquer pessoa que necessite de um mãe, uma irmã, uma tia, mulheres que são a trave mestra de muitas vidas alheias, que criam filhos para os verem irem embora depois e que vêem também partir os seus homens, sem um queixume, porque têm outras coisas mais urgentes para fazer.”
Imagem retirada do PixaBay.

“Parecia-me igual a tantas outras que conheci nos refeitórios populares, no hospital do meu tio Jaime, na casa do vigário onde iam perguntar pelos desaparecidos, na morgue onde iam buscar seus mortos. Disse-lhe que se tinha arriscado muito ao ajudar-me, e ela sorriu. Então, eu soube que o coronel García, e outros como ele, têm os seus dias contados porque não conseguiram destruir o espírito dessas mulheres.”

“No canil [Nota do blog: uma das salas de tortura], tive a ideia de que estava a fazer um quebra-cabeças em que cada peça tem uma posição precisa. Antes de as colocar, a todas, parecia-me incompreensível, mas estava certa de que se o conseguisse terminar, daria um sentido a cada uma e o resultado seria harmonioso. Cada peça tem uma razão de ser tal como é, inclusivamente o coronel García.”

“Ser-me-á muito difícil vingar todos os que têm de ser vingados, porque a minha vingança não mais que outra parte do mesmo ritual inexorável. Quero pensar que o meu ofício é a vida e que a minha missão não é prolongar o ódio,...”

SE VOCÊ QUER SABER MAIS SOBRE LITERATURA CHILENA...

Recomendo a leitura do livro Canto Geral de Pablo Neruda. Ele narra toda a História da América Latina em versos. Pablo Neruda foi o segundo escritor chileno a ganhar o Nobel de Literatura (depois de Gabriela Mistral). No livro A Casa dos Espíritos, o escritor é um dos personagens, o Poeta, e seu funeral é descrito. Todos os personagens participam do funeral.

Filme sobre as últimas horas de Allende. Lançado em 2014.

Também recomendo o filme chileno Allende – Em seu Labirinto (de 2014), que descreve os últimos momentos do presidente chileno e seus aliados no palácio de governo (El Palacio de la Moneda) antes do golpe militar liderado pelo general Pinochet.

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