A IMPERATRIZ DE FERRO - A Concubina que Criou a China Moderna – JUNG CHANG

O livro é a biografia da imperatriz chinesa Cixi (em português, Tseu-Hi) que governou a China, pela Dinastia Qing, durante 47 anos (direta ou indiretamente por meio dos seus filhos), de 1861 até sua morte em 1908.



Cixi (cujo verdadeiro nome é desconhecido até hoje) nasceu numa família aristocrática da etnia manchu, que governava a China (predominantemente composta pela etnia hans). Ela nunca teve seus pés quebrados e enfaixados, pois este era um costume hans. Ela teve educação básica em casa e seu pai sempre a consultava para tomar decisões e conversa francamente com as filhas. Na adolescência, em 1856, ela foi levada para um concurso de escolha de concubinas do imperador Xianfeng.

O imperador tinha dezenas de concubinas, organizadas em classes e todas governadas pela imperatriz, que era responsável por organizar o harém da Cidade Proibida. No caso, a imperatriz chamava-se Zhen, era um ano mais nova que Cixi, e as duas desenvolveram uma amizade sincera.

Talvez o uso de concubinas se devesse a uma alta taxa de infertilidade dos imperadores manchu. Pois, mesmo sendo conhecido por suas proezas sexuais e possuindo várias concubinas, o imperador Xianfeng só teve um casal de filhos, sendo Cixi a mãe do menino, consequentemente, o herdeiro do trono.

O imperador era extremamente xenófobo e acabou se envolvendo na Guerra do Ópio, a primeira guerra da China contra uma potência ocidental, no caso, a Grã-Bretanha. Nessa época, Cixi não era nada. Como mulher, ela não podia falar de política com o marido. Ela até tentou. O imperador chamou a imperatriz Zhen e pediu que “disciplinasse” Cixi para que ela nunca mais ousasse algo assim. Como as duas eram muito amigas, Zhen consegui salvar a amiga.

Os britânicos tomaram Beijing (Pequim, em português) e o imperador teve que fugir com a família e o herdeiro. Os chineses mataram sob tortura alguns agentes britânicos, em represaria, os anglo-saxões queimaram um dos mais belos palácios da China, o Palácio de Verão. Essa foi uma das maiores dores no coração de Cixi. Durante toda sua vida, ela tentou reconstruí-lo (sendo acusada até de subtrair recursos da Marinha para isso). Ela o reconstruiu em partes, mas ele jamais voltou à glória do original. A reconstrução é hoje o Yiheyuan.

O imperador morreu exilado na fuga, deixando o governo para um conselho de regentes, enquanto seu filho (na época, com seis anos) fosse menor. Aliada com a imperatriz Zhen, Cixi , aos 27 anos, dá um golpe de Estado e começa a governar a China. O golpe e a maneira como ele foi executado é uma obra de genialidade estratégica. Principalmente, porque só três pessoas foram executadas. É um golpe muito radical e muito drástico, com quase nenhum derramamento de sangue.

Como Cixi era mulher, ela não podia ter conversas com seus colaboradores (todos homens) diretamente. Ela tinha que dar audiências atrás de um biombo com um véu amarelo (a cor do império). Foram várias décadas de governo, houve alguns erros, mas a maior parte das medidas foram muito modernizadoras, a instalação de ferrovias (entre elas, a famosa Transiberiana), telégrafos, obras de infraestrutura, modernização do Exército e da Marinha e a promoção da abertura da China para as relações exteriores. Ela abriu universidades, promoveu uma reforma na educação, promoveu a educação de mulheres, aboliu o costume de quebra dos pés de mulheres hans, permitiu a liberdade de morrer, e, antes de morrer, seus últimos decretos foram no sentido de promover a democracia e voto direto na China.

Cixi enfrentou várias guerras, uma delas contra quatro ou cinco nações ocidentais unidas. Em uma delas, assim como seu falecido marido, teve que fugir da Cidade Proibida. Mas ela era tão respeitada e transmitia tanta autoridade, que os governantes chineses continuaram leais a ela e foi possível conduzir uma negociação de paz. Cixi sofreu, pelo menos, duas tentativas de homicídio, além de ser caluniada durante várias décadas (além dos adversários políticos, essas críticas podem ter um embasamento misógino).

Neste sentido, o livro A Imperatriz de Ferro é um tratado sobre como conquistar e manter o poder, além de como as relações internacionais funcionam. Ele é uma leitura fundamental para todos aqueles (de qualquer gênero) que se interessam pelo assunto “poder”. Ele faz parte das metas de leitura de 2017 e é um sério candidato ao título de “Melhor Leitura do Ano”.

O blog já leu também duas biografias de outras mulheres que governaram países. O livro Golda de Elinor Burkett, biografia de Golda Meir, primeira-ministra de Israel de 1969 e 1970, que tem em comum com a imperatriz Cixi o fato de também ter governado um país durante o forte estresse de uma guerra, no caso a Guerra do Yum Kippur.

O livro Castelo de Papel da historiadora brasileira Mary de Priore, biografia da Princesa Isabel. A princesa era herdeira presumida do Reino do Brasil, aparentemente ela nunca gostou de governar e preferia se dedicar às atividades domésticas e à sua família. Mas ela foi regente no ano de 1888, quando assinou a Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil. No ano seguinte, a família imperial sofreu um golpe de Estado que instaurou a república. Depois de ler A Imperatriz de Ferro (lembrando que Cixi governou a China no mesmo período histórico que Isabel governou o Brasil), eu fiquei muito crítica à biografia de Mary del Priore. A historiadora deu pouca ênfase ao contexto internacional que o Brasil estava inserido na época e a influência das suas relações diplomáticas no período de regência. A autora fala das viagens dos membros da família real à Europa como se fosse só turismo. Entendo o contexto da época, é muito pouco provável que os governantes fizessem isso “pelo passeio”.

Mas para quem quer continuar mergulhando na História da China e saber o que aconteceu depois da morte de Cixi, vale assistir o filme de Bertolucci (1987), O Último Imperador. Se você quer saber mais China, vale a pena ler A Boa Terra da Nobel norte americana que viveu no país entre os agricultores mais pobre no período do governo da imperatriz Cixi. Segundo a autora, quando Cixi morreu, o povo ficou aflito e se pergunto: "E agora, quem cuidará de nós?". Essa é a melhor avaliação de um governante.




BOA SEMANA! BOAS LEITURAS!

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