Memórias de Adriano - Marguerite Yourcenar

 
"A convenção oficial exige que o imperador romano nasça em Roma, mas foi em Itálica que nasci. Foi esse país seco e, no entanto, fértil que sobrepus mais tarde muitas regiões do mundo.
Imperador Adriano
A convenção tem a vantagem de provar que as decisões do espírito e da vontade transcendem as circunstâncias. O verdadeiro lugar do nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos: minhas primeiras pátrias foram os livros. Em menor escala, as escolas."

 Memórias de Adriano é o livro de Marguerite Yourcenar que narra a vida do imperador roma Adriano em primeira pessoa, na forma de cartas para seu sucessor Marco Aurélio.

 O livro possui muita precisão histórica e é muito poético. Eu me senti realmente conversando com o imperador Adriano e admirei esse personagem histórico. 

 
Plotina, esposa de Trajano
Entre passagens que me cativaram estão a relação de respeito e admiração que ele tinha por Plotina, a esposa de Trajano, seu antecessor no governo do Império Romano. Plotina foi praticamente uma mãe para ele e uma conselheira de Estado muito sábia. 

 Adriano era casado com Sabina, um casamento por conveniência que nunca lhe deu filhos. Além disso teve dois relacionamentos com homens bem mais jovens que se destacaram,  um com Lúcio e outro com Antínoo.

 
Gema com rosto de Antínoo
"o único objeto da face da Terra
que temos certeza que
esteve nas mãos de Adriano."
Antínoo era um jovem estrangeiro (grego), que Adriano conheceu aos 15 anos e que teve uma morte trágica aos 20. O Imperador cunhou várias moedas com a sua face, promoveu vários monumentos para homenageá-lo. Marguerite Yourcenar explora bem os possíveis sentimentos de Adriano com relação a perda de Antínoo e o que possivelmente aconteceu no dia de sua morte.

 Outras passagens marcantes foram a participação (verídica ou não) de Adriano na guerra da Palestina. Lembro de uma consideração de Adriano no texto mais ou menos assim: "Eu fui o mais pacifista de todos os imperadores romanos. Meu governo de 18 anos acabou numa guerra de 4 anos na Palestina que deixou 600 mil mortos. Isso me faz pensar que as guerras nunca terão fim." Um comentário que é bem verdadeiro. Assim como outros que ele faz sobre a arte de governar que podem ser considerados "neoliberais", como o que transcrevo a baixo. 

 
Ruínas de Vila Adriana
Este livro me trouxe o conhecimento sobre pontos turístico que eu quero (e vou!) conhecer na Itália, entre eles a Vila Adriana, palácio de Adriano, que ele construiu para governar em repouso e desfrutando da sua admiração pela cultura grega e o Castelo de Sant'Angelo, túmulo de Adriano.

"Nossos comerciantes são, por vezes, nossos melhores geógrafos, nossos melhores astrônomos, nossos mais sábios naturalistas. Nossos banqueiros podem colocar-se entre nossos mais hábeis conhecedores dos homens. Utilizava sua competência; lutava com todas as minhas forças contra a usurpação. O apoio dado aos armadores decuplicou o intercâmbio entre nações estrangeiras; consegui, dessa maneira, aumentar com poucas despesas a custosa frota imperial. No tocante às importações do Oriente e da África, a Itália é uma bela ilha e depende dos corredores do trigo para sua subsistência desde que não é ela própria a fornecê-lo; a única maneira de fazer face aos perigos dessa situação é tratar esses indispensáveis homens de negócios como funcionários vigiados de perto. Nossas velhas províncias atingiram nos últimos anos uma prosperidade passível de ainda ser aumentada, mas o que realmente importa é que essas prosperidade sirva a todos, e não somente ao banco de Herodes Ático, ou ao pequeno especulador que açambarca todo o azeite de uma aldeia grega.

Castelo de Sant'Angelo, túmulo original de Adriano

Nenhuma lei é demasiadamente dura para reduzir o número de intermediários que abundam em nossas cidades: raça obscena e obesa cochichando pelas tavernas, encostada em todos os balcões, pronta solapar toda política que não lhes proporcione vantagens imediatas. Uma distribuição judiciosa dos celeiros do Estado ajuda a conter a escandalosa inflação dos preços em tempos de escassez, mas eu contava sobretudo com a organização dos próprios produtores, dos vinhateiros gauleses, dos pescadores do Ponto Euxino, cuja cota miserável é devorada pelos importadores de caviar e peixe salgado, que engordam à custa dos trabalhos e dos perigos deles.

Um dos meus dias mais felizes foi aquele em que consegui persuadir um grupo de marinheiros do Arquipélago a associar-se em corporação e tratar diretamente com os mercadores da cidade. Jamais me senti tão imperador e tão útil."



Marguerite Yourcenar, pseudônimo de Marguerite Cleenewerck de Crayencour (Yourcenar é um anagrama de Crayencour) foi um escritora belga de língua francesa. Acho que esta é a primeira vez que leio um livro de alguém dessa nacionalidade. Marguerite teve uma educação excepcional, seu pai lhe ensinou latim aos 8 anos de idade e grego aos 12. 

 Escreveu vários livros, acredito que poucos traduzidos para o português, Memórias de Adriano foi o livro que lhe trouxe reconhecimento internacional. Um pouco antes da Segunda Guerra Mundial, a autora se mudou para os EUA, onde viveu até sua morte. 

 Marguerite Yourcenar foi a primeira mulher a ser eleita para a Academia Francesa de Letras.
   

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